terça-feira, 24 de novembro de 2009

nem bom, nem mal, humano

no universo conhecido, amor
nem só é bom nem apenas dor
a pessoa, penso, entanto, mata
é morta por outro animal
mesmo semelhante feral
pela fome ou por rival
passa o tempo e a história
é presente entre nós, amada
e por pouco ou mesmo nada
tanta gente assassinada
pela hegemonia conquistada
de nacionalidades a tribos
escravizam-se soberanias
de terras nacionais ou tribais
de outros iguais
não mais lanças, espadas, punhais
após a pólvora, o chumbo, sabeis
são canhões, foguetes, mísseis
das ferrenhas disputas cruéis
para adonar-se da pouca água
da muita terra, de quase nada
transformado em mercado
conquistada em tanta guerra
nem boa ou má a pessoa nasce
há um caminho de opressão
a exploração em marcha batida
a corrida da iniquidade, amada
não é feita por piedade
prevalece a desumanidade
há progresso, há ciência
nos detalhes e na essência
mais controle de doenças
mais vida em expectativa
para poucos, se bem diga
os de cima... a indecência
há gente que morre de fome
sem meios mais de guerrear
devastações são continentais
sem solidariedade a barrar
a barbárie já retorna
e um senhor da guerra capaz
é premiado campeão da paz
dos campos de papoula
cocaleiros dos quintais
num botequim de favela mais
leva chumbo um soldadinho
fogo amigo de outro bandido

domingo, 22 de novembro de 2009

VÍDEOS LITERÁRIOS

Saudações! Seguem alguns vídeos literários, são poesias minhas. Há textos góticos e sacros, todos no segmento poesia retrô.


ANTES, AGORA E SEMPRE AO VIVO


http://www.youtube.com/watch?v=-PmTO_aQhEM






ISIDRO ITURAT LUNA MENGUANTE

http://www.youtube.com/watch?v=5PvLFpfpicc






SONETO AO VIVO

http://www.youtube.com/watch?v=PtmlUWmzRa4




PÁLIDO PECADO AO VIVO

http://www.youtube.com/watch?v=DPqKr57PRoU





Ó BELA MORTE

http://www.youtube.com/watch?v=HtD924EMQYg




O TEMPO ME RESPONDERÁ

http://www.youtube.com/watch?v=MfsRsugFmic




JOIA AO VIVO

http://www.youtube.com/watch?v=ZDWoSaIZUoE




O OURO E A PRATA ÀS MAIS SACRAS ESCULTURAS AO VIVO

http://www.youtube.com/watch?v=LcVy8vB-Jek




COMO TE CONTEMPLO! na voz de Sunny Lóra

http://www.youtube.com/watch?v=PTFuSfkzCYc
 
Pálido Pecado http://br.youtube.com/watch?v=HqxcEf1M1jY

 

Demônio Angelical

http://www.youtube.com/watch?v=tg04Gt5pmCM




Soneto

http://www.youtube.com/watch?v=V3q_TJ9jeEw




Lost Past


http://www.youtube.com/watch?v=OaF8NiPem7M
 
 
Quero aproveitar o espaço para dizer que o blog Poesia Retrô está precisando de declamadores para uma coletânea de áudios. http://66.228.120.252/forum/index.php?PHPSESSID=528086d077367624883b1069d3c95cbf&topic=5639.msg190718#new
 

sábado, 21 de novembro de 2009

Depuração


Hoje precisei me afundar na noite crua, nua, sem teto ou paredes e adentrar sua solidão, a mesma que por vezes corta qual navalha, mas é necessária. O ruído de meus passos pisando pedregulhos no caminho sombrio daquele bosque ecoa lembranças enquanto escoa-me o veneno do dia. Ratos insistem em cruzar minha frente fugindo das corujas; levam com eles o brilho do medo nos olhos. Predadores dominam o ambiente e às presas resta o pavor.

Deixo a trilha e penetro uma densa vegetação. A obscuridade aguça os sentidos e fabrica monstros.

Dirijo-me a uma clareira no meio da mata, abro os braços, percebo a lua minguante me observando, desconfiada, miro a estrela (aquela, a mesma dos sonhos), absorvo os odores da mata e o frescor da brisa e começo minha depuração: minhas veias intumescem, músculos se retesam, a pele queima em febre insana borbulhando peçonha e exalo a fumaça rubra de meus rancores, dores e dissabores. Contamino a pureza natural dos instintos. Nesta noite o monstro sou eu e só a escuridão pode me abraçar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Crepúsculo- Resenha por Giselle Sato


Crepúsculo
(Twilight -2008)



O filme começa com um clima normal, uma adolescente como qualquer outra, Isabella Swan (Kristen Stewart) se muda para Forks, uma cidade pequena, nublada e chuvosa, perto do estado de Washington. A razão da mudança, é o novo casamento da mãe, com um jogador de baseball da segunda linha. E a vontade da mesma, de viajar com o marido, o que não poderia fazer, morando com Bella. A reaproximação com o pai, a escola onde é o centro da atenções e o reencontro com o amigo índio, dão um enfoque inicial bem tranqüilo.

O que Bella não contava, era com o fascínio que uma estranha família, causa em seu mundo tímido e triste. Os Cullen, são um grupo de jovens pálidos, lindos e arredios. Razão por si só, motivo de muita curiosidade. Em especial, o mais jovem dos irmãos, Edward Cullen (Robert Pattinson), um garoto de uma beleza e magnetismo, atordoantes e irresistíveis. Depois ela descobre que ele é um vampiro, e se desenrola um romance, o grande mote da historia.

Eis a sinopse do filme, com pitadas de situações onde a jovem é salva pelo amado e todas as informações aprendidas nos antigos filmes sobre vampiros. Quem assistiu Entrevista com vampiro, Harry Potter, Van Hensing e outros, sabe muito bem do que estou falando. Sobreviver com sangue humano ou animal? Resistir à sede e lutar contra os maus da espécie ou dar vazão a todo poder e ferocidade? Um bom fã de vampiros, conhece de cor e salteado. Então, o que tornou uma série, escrita em 2005 por uma escritora novata, um fenômeno? Vamos entrar neste universo sobrenatural...

Se tratando de um primeiro episódio de uma série, esse é um filme mais completo, com um início, meio e fim. A história, para muitas adolescentes, é linda, maravilhosa e romântica.
Romeu e Julieta do século 21, cenários lindos e a realização dos sonhos de qualquer mortal: Viver a emoção de um imortal, escalando arvores altíssimas, vendo o mundo sob um ângulo completamente diferente. E é claro, não podemos esquecer: A dor do amor frustrado, proibido, entre uma humana e um vampiro.

Ele representa o perigo, ela é uma garota diferente, que não teme o desconhecido. Estão tão envolvidos, que precisam lutar contra as inquietações desconcertantes, tão comum aos jovens e aprender a controlar seus impulsos.

Bella, aos dezessete anos, é a mistura perfeita de pureza e libido.
Edward tem sede, não de sexo, mas do sangue da amada. Querem situação mais erótica e provocante? Muitas cenas, insinuam um beijo que nunca acontece... E envolvem o publico em uma torcida apaixonada.

Enquanto isso, sensualidade, paisagens belíssimas, efeitos especiais, romance e fantasia interagem. Não foi à toa que o filme virou febre e conquistou altíssimas bilheterias. Devo admitir que o filme é delicioso e por alguns minutos, senti vontade de ter todos aqueles poderes. Quem não sentiria? Impossível resistir...

E é claro, encontrar um vampiro tão encantador, quanto Edward, personagem que Stephenie Meyer, a autora, construiu em uma trama de extraordinário suspense e que marcou sua estréia literária.

Vale citar que seus livros já venderam mais de 25 milhões de copias e foram traduzidos em 37 idiomas. A saga é contada em quatro livros, e o segundo volume, Lua Nova, já estreou nos cinemas. Posso adiantar que neste filme, Jacob Black , o amigo índio de Bella e que já deixou indícios, de ser um lobisomem, tem grande destaque na trama.

Crepúsculo vale a pena ser assistido, por todas as razões acima citadas e principalmente porque foi feito para entreter.
Por alguns minutos, deixe a realidade lá fora, e no escurinho do cinema... Liberte o jovem dentro de si e deixe-se levar pela magia.




"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim"


(trecho do livro)

Diretor: Catherine Hardwicke
Roteiro: Melissa Rosenberg

Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke, Ashley Greene, Nikki Reed, Kellan Lutz e Taylor Lautner.





Autora: Stephenie Meyer formou-se em literatura inglesa na Brigham Young University. Sobre este romance (Crepúsculo), ela diz: "Sempre admirei a capacidade de alguns escritores de criar situações de fantasia impossíveis e depois acrescentar personagens que são tão profundamente humanos que suas perspectivas tornam a situação real. Espero que Crepúsculo proporcione a mesma experiência a seus leitores". A escritora mora com o marido e três filhos em Glendale, no Arizona.




Descrição da Saga:
Crepúsculo: O início da saga de Isabella Swan desde sua chegada a cidadela de Forks e a descoberta de sua paixão pelo vampiro Edward Cullen no best-seller mais cultuado da atualidade. - 416 páginas


Lua Nova: Para Bella Swan, há uma coisa mais importante do que a própria vida: Edward Cullen. Mas estar apaixonada por um vampiro é ainda mais perigoso do que ela poderia ter imaginado. Edward já resgatara Bella das garras de um mostro cruel, mas agora, quando o relacionamento ousado do casal ameaça tudo o que lhes é próximo e querido, eles percebem que seus problemas podem estar apenas começando... Em Lua Nova, Stephenie Meyer nos dá outra combinação irresistível de romance e suspense com um toque sobrenatural. - 480 páginas



Eclipse: Enquanto Seattle é assolada por uma sequência de assassinatos misteriosos e uma vampira maligna continua em sua busca por vingança, Bella está cercada de outros perigos. Em meio a isso, ela é forçada a escolher entre seu amor por Edward e sua amizade com Jacob - uma opção que tem o potencial para reacender o conflito perene entre vampiros e lobisomens. Com a proximidade da formatura, Bella vive mais um dilema: vida ou morte. Mas o que representará cada uma dessas escolhas?- 464 páginas


Amanhecer: Na aguardada conclusão da saga Crepúsculo Bella se vê a frente da difícil decisão da escolha fatal entre fazer parte do obscuro, mas sedutor, mundo dos imortais ou seguir uma vida totalmente humana. Escolha essa, que poderá significar a transformação do destino dos dois clãs: vampiros e lobisomens. Assombroso e de tirar o fôlego, Amanhecer esclarece os mistérios e os segredos desse fascinante épico romântico que tem arrebatado milhões de leitores. - 576 páginas

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

De Gato e Rato

É no escuro, no quarto sem cantos vivos ou horizonte, que abro meus olhos. É no escuro, do lado de dentro do cubo de faces pretas, que faço o convite. É no escuro, com fumos de tabaco e assa-fétida, que ergo as cortinas do mundo. É no escuro, ao som de um violoncelo a noventa decibéis, que arranco da terra uma coluna de fogo. É do escuro, agora negro-escarlate, que me lanço em seu encalço. É no escuro que encontro, a cada noite, a sua luz baça. É no escuro que, a cada noite, atrelo seu sono aos cães.

É no escuro, perdido nos vapores, que você cai a cada noite. É no escuro, em ré menor, que um quarteto de cordas toca seu réquiem. É no escuro que você, cordeiro, bale perante os lobos. É no escuro que você, fraco, rasteja em busca de saída. É no escuro que você, fraco, implora por uma saída. É no escuro que você, fraco, jura que mataria seus pais em troca de uma saída. Quando, então, desfaço as amarras, é no escuro que você, fraco, balbucia e soluça obrigados.

É no escuro que pinto seu sono com os monstros da sua infância. É no escuro que corto, noite mal dormida por noite mal dormida, uma por uma, as cordas da sua sanidade.

(Quem mandou se meter com alguém que, um dia, matou um deus?)

domingo, 15 de novembro de 2009

T A L L I N K


TALLINK
Thiers R >




Ouvira aquele nome a

martelar a cabeça

como soco que vai e vem

boneco da infância

balança vulnerável

sensações...

o boneco, o martelo, o som

agora traduzo


– ‘Tallink’
onde se situa?

o que é Tallink?

faço a descoberta

uma cidade

em milhas de convicção

sinto

intensa vontade

de visitá-la

apalpá-la

chego a vibrar cordas

d’um instrumento pensando

.... Tallink, és minha

neste frio da noite

encoberta por luas

és desejo acendendo

voz rouca e gripada

a noite acontece

porque decido

és vão entre a hora e a parede

convertido em pensamentos

afino o instrumento

o concerto

se faz macio

base de toda procura

resume-se na ida

por isto vou

verei e viverei

o sonho que não acordou

na imensidão dos prazeres








>

sábado, 14 de novembro de 2009

O NASCIMENTO DO VAMPIRO

(Darkness)


A humanidade já se condenou outras vezes. A atual tribulação que a acomete não é a primeira, mas talvez venha a ser a última. A primeira vez, que a condenação caiu sobre a humanidade, a Atlântida ainda não sucumbira ao cataclismo que a soterrou, Sodoma e Gomorra ainda demorariam milênios a serem construídas, a era glacial só cobrira a superfície uma vez, e os grandes répteis haviam caminhado sobre a Terra há pouco tempo.
Assim que as iniqüidades praticadas chegaram a nível desproporcional, os anjos justiceiros foram enviados a Terra. Dotados de poderes extraordinários, eles podiam controlar os elementos desencadeando acontecimentos funestos para os condenados.
Dentre as armas trazidas, os justiceiros despertaram as bestas que haviam sido aprisionadas no mais profundo dos abismos; a consciência humana. Aqueles que vêem os lobisomens como o ápice de bestas sanguinárias iriam se aterrorizar com as bestas adormecidas mo âmago do ser humano. Elas não podiam ser detidas por força alguma que a humanidade tinha por usual glorificar.
A punição destituída de senso de justiça não passa de vingança insana assim, os justiceiros não foram enviados desacompanhados. Outro anjo foi designado para acompanhar a efetivação da justiça. Mesmo considerando a podridão que se espalhara pela humanidade, era possível encontrar alguns que não haviam se deixado contaminar pelo mal.
Enquanto os justiceiros perpetravam a justiça, ele mantinha-se a margem dos fatos se preparando para o momento em que lhe seria concedido o dom da misericórdia. Através de seu atuar, a humanidade conheceria a redenção e poderia continuar existindo. Passivamente ele aguardava.
Ignorando a extensão dos fatos que a dominava, a humanidade vivenciava tempos terríveis. Os povoados eram destruídos em sua totalidade, as almas, destroçadas, lançadas no abismo da perdição eterna.
Peste, fome, guerra e morte eram as faces externas com as quais os justiceiros se mostravam. Apenas as almas mais podres anteviam as verdadeiras silhuetas que traziam o fogo da justiça. A estas nada mais era legado a não ser a aniquilação.
O agir dos justiceiros pode ser comparado a uma nuvem escura que encobre o horizonte quando uma tempestade se aproxima. Ela surge em silêncio, traz o estrondo da destruição, rompe tudo que estiver em seu caminho e parte deixando apenas o som dos lamentos daqueles que sobreviveram.
No manifestar dos justiceiros, apenas a última parte se mostrava diferente. Sobreviventes era algo que eles não estavam orientados a permitir que existissem. Não fosse a intervenção de um Amor misericordioso e justo, todos sucumbiriam ao efetivar de suas ações e a humanidade seria varrida da superfície terrestre.
Mesmo tolhida em sua liberdade, a humanidade ainda persistia em seu errar. A arrogância desmedida aprisionando a humanidade na ilusão de que sua condenação viria por meio de um cataclismo gigantesco; dilúvio universal, meteoro descomunal, fogo celeste, enfim as mais disparatadas teorias. Mas a justiça manifestava-se através de elementos que não haviam sido considerados.
A erupção virulenta de epidemias desconhecidas abatia milhares sem distinção de classe social, cor, credo, orientação moral, todos estavam sujeitos aos efeitos do expurgo. Enquanto o tempo da Justiça predominasse, não haveria comiseração. Os lamentos eram ignorados, as preces caiam no vazio e a humanidade vivia o retorno de seus erros.
Os campos tornaram-se encharcados não podendo ser mais cultivados. Sangue e água misturavam-se em lagos vorazes que consumiam todo terreno a sua volta. As tempestades irrompiam sem nenhum sinal de advertência. No mesmo instante em que o sol se mostrava esplendoroso, uma nuvem opaca o exilava para além de seu manto escuro. O caudal líquido soterrava tudo que estivesse sob seu vomitar.
Aliado a devastação trazida pela peste, a fome ceifava ao sabor do cego avanço de seus forcados. Nada a plantar... nada a colher. Barrigas roncavam implorando por um misero grão, mas a terra fora violentada, o seio da Mãe Natureza sangrava e já não podia mais gerar os frutos que sustinham a existência humana.
Em um quadro tão dantesco o pior ainda estava sendo urdido. Os amaldiçoados que conseguiam sobreviver, aos justiceiros, passaram a extirpar os corpos sem vida de seus iguais. A carne putrefata era sorvida como se estivessem saboreando o mais suculento dos repastos. Civilidade? Humanidade? Nada mais havia sobrado dos conceitos equivocados que haviam sido tomados por Verdades.


continua AQUI

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

VOZ DA BESTA - CONTO COMPLETO


Nota da autora: Resolvi postar novamente a primeira parte do conto junto com o fim, desta forma quem não leu a primeira parte, pois já faz um mês, pode ler inteiro agora, o que dá também mais impacto ao texto. Obrigada. Ana Kaya.

VOZ DA BESTA parte I

Eu durmo com meus olhos abertos. Meus ouvidos captam o menor som e eu acordo. Se o ar se move delicadamente sobre os pelos de meu corpo, eu saberei que existe uma criatura viva perto de mim. Cheiros de animais trazidos pelo vento podem encontrar-me mesmo estando centenas de quilômetros longe de mim.
Você tem medo da escuridão? Você está certo em temer. Vivemos na escuridão e lá fazemos nosso trabalho. Pode ter certeza que queremos apenas o que é mal. Apenas o que pode te machucar.
Quando estiver se sentindo fraco, nós saberemos. Então nós te olharemos enquanto dorme, esperando pela hora quando poderemos trazê-lo para dentro da nossa escuridão.
Á noite, falamos com você e te chamamos a juntar-se a nós. A batida na porta que te acorda durante a madrugada – isto é um de nós, vindo para convidá-lo a viver uma vida morta. Não ouça. Feche os olhos, se quiser escapar vivo.
Nós sempre estivemos aqui. Estávamos aqui desde o início dos tempos.
Muitas centenas de anos atrás as pessoas comiam com os deuses. Naquele tempo, na Grécia, existiu um homem chamado Lykaon. Nas estórias gregas, Lykaon era o filho do primeiro homem na Terra. Ele era o rei das pessoas que viviam nas montanhas de Arcádia. Mas Lykaon era um homem que fez coisas más, e um dia o deus Zeus ouviu sobre estas coisas. Então o visitou de surpresa. Lykaon matou uma criança e a deu a Zeus para comer. Zeus estava tão furioso que transformou Lykaon num lobo. Ele teve que deixar sua família e as pessoas, e viver nas florestas consigo mesmo.
Ele era metade homem e metade lobo.
Os filhos de Lykaon, meus irmãos e eu temos estado na Terra desde então. Mas deixamos Arcádia e viajamos o mundo. Cada um de nós se desgarrou e continuou sozinho. Vivemos escondidos em diferentes lugares. Algumas vezes nos mostramos ás pessoas, mas eles morrem de medo de nós. Usam armas e atiram em nós balas de prata. Fazem grandes fogueiras e nos queimam vivos e cortam nossa cabeça.
Mas nós não morremos. Apenas mudamos. Em mortos vivos.
Movemo-nos ao redor do mundo de várias formas. Você não nos vê, mas estamos no meio de vocês, em todas as partes do mundo. Você pode ouvir nossos uivos se escutar com atenção. Eles são carregados pelo vento vindo do sul e através das montanhas brancas do norte.
Não há nada que possa fazer para escapar. Você pode pensar que nos mata com suas balas de prata. Mas você não pode. Movemo-nos de um corpo a outro, de um lugar a outro. Precisamos de sangue e carne morta e estamos sempre famintos. Mataremos qualquer coisa viva: bebês, vacas, crianças, ovelhas, bodes, galinhas, homens, mulheres...
Como pode nos reconhecer? Bem, o que pensa que irá ver? Algumas vezes sou um animal da noite como um morcego ou um lobo ou uma coruja. Ou um negro cão selvagem, como um cachorro que senta na entrada do mundo subterrâneo. Algumas vezes eu sou o fantasma que se deita ao seu lado enquanto dorme. Ou eu sou um lindo homem ou mulher que você deseja mais que qualquer outra coisa neste mundo.
Eu sou todas estas coisas e nenhuma delas. Movo-me entre seu mundo e o meu tão facilmente como um peixe na água. Você não pode entender quão facilmente. Você pode ver alguma coisa se mover no canto dos seus olhos. Se se virar para olhar, não haverá nada lá. Apenas uma folha se mexendo com o vento você pensa.
Mas estou seguindo, pelas sombras, atrás de você. Sou seu pior pesadelo.


VOZ DA BESTA – PARTE II


Agora, eu olho de minha janela e vejo que a luz está indo embora da Terra. Esta noite a lua estará no alto do céu quase a noite inteira. Seu brilho prateado cairá macio como chuva nos campos e florestas, no topo da montanha. Breve sentirei o vento frio da noite em minha face, o ar movendo-se através dos pelos em minha cabeça, braços e costas. Escutarei o som de meus pés conforme eles andem na terra úmida e na grama. Ouvirei o som dos pequenos animais conforme eles se movam rápidos para sair de meu caminho.
Estarei saindo esta noite.
Você pergunta por que? Eu lhe direi.
Alguns visitantes chegaram. Eu os vi caminhando pela floresta. Eu os vi olhando ao redor, para o estranho lugar desconhecido. São pessoas da cidade. Aqui ficam inseguros, se movem com cuidado.
Mais tarde estavam no pub. A morte tocou-a com seus frios dedos. Pude ver isso em seus olhos. Agora ela tema a escuridão que a está seguindo.
Mas também existe algo em seus olhos que eu reconheço. Eu vi este rosto antes. Tenho certeza. Talvez na Grécia, Sul da Itália? Talvez num vilarejo da montanha em algum lugar. Ela me interessa. Não consigo parar de pensar nela. Eu quero que ela venha comigo, que esteja ao meu lado.
Eu sei que ela está pronta para vir ao meu mundo. Mas ela não sabe ainda. Quando eu disser, ela entenderá o que deve fazer. Mas devo ser cuidadoso. A hora tem que ser certa...
Primeiro irei até ela e darei as boas vindas, darei um presente. Devo me preparar.
Ando através do quarto escuro até a lareira.
A luz do dia me faz fraco e doente. A suave luz prateada da lua é o que eu gosto.
Da parede tiro meu cinto. É grande e pesado preto e prateado. Na prata existe a face de um cachorro, o cachorro que senta na porta do mundo inferior.
Coloco o cinto cuidadosamente no chão em frente do fogo. Ajoelho-me e repito as palavras que devo dizer. As palavras são numa linguagem que nenhum homem ou mulher podem dizer. Sinto o calor do fogo em meu rosto. No centro do fogo vejo meus pensamentos indo e vindo.
Depois de um tempo, depois que todas as palavras foram ditas, fico em pé e coloco o cinto.
Imediatamente meus braços e pernas ficam mais fortes. Olho através do céu escuro e dou um grito selvagem. Então, em um grande pulo, saio do quarto através da janela aberta.
A noite está fria, mas eu não sinto. Não sentirei até transformar-me em homem novamente. Toco o cinto ao redor de minha cintura.
Saberei o que fazer, quando chegar a hora certa.


VOZ DA BESTA – PARTE III

Tudo bem. Foi feito com êxito. Meu plano está funcionando bem. Sou bom nisso. Sou paciente e penso em todos os detalhes. Sei como dar um passo de cada vez. Sei como conseguir o que quero. Tempo não significa nada para mim. Posso esperar e esperar pelo momento certo. É como tirar uma fotografia de uma criança ou um animal. Deve-se concentrar, não pensar em nada mais. Você tem que saber o que vai acontecer antes de acontecer. Ou será como pilotar um avião ou um navio dentro de uma grande tempestade. Um pequeno toque aqui, outro ali e tudo irá seguir uma direção reta até o fim.
O marido não está lá agora. Está machucado, mas eu não me importo. Ele está suficientemente machucado. Suficiente para mantê-lo no hospital, longe dela. Mas não tanto para que ela fique apavorada e preocupada com ele. Não quero que ela fique pensando muito nele. Eu quero que ela fique feliz em estar falando comigo.
As coisas serão difíceis para ela agora. Ela precisa de alguém que possa ajuda-la a fazer tudo, as pequenas coisas do dia a dia. Ela está fraca porque a escuridão está chegando perto e ela sabe disso.
Antes, a escuridão estava apenas em seus sonhos. Agora ela a sente mais perto, atrás dela quando está desperta e ela está com medo. Ela está sozinha e precisa de alguém com quem possa falar.
Eu vou ajudá-la. Ela falará comigo porque eu a escutarei. Não como seu marido. Ele não sabe como ouvir. Pouco a pouco, passo a passo. Este é o jeito de faze-lo.

A VOZ DA BESTA – IV

Richard convidou Susie a visitar a velha mansão da família, antes de levá-la ao hospital para ver o marido acidentado.
Ela aceitou, pois não queria ser rude com ele, estava sendo gentil em dar-lhe uma carona.
Ao entrarem na casa ela se assustou com a aparência decadente do lugar, que antigamente deveria ter sido uma bela mansão.
_Venha Susie, vamos para a outra sala, um dos poucos lugares que eu consegui arrumar neste pouco tempo que estou de volta a casa de meus pais.
Entraram numa sala onde havia uma lareira e vários quadros dos ancestrais de Richard na parede.
Era assustador olhar para os quadros, os olhos pareciam estar olhando para ela.
Richard era um homem lindo e sedutor, e muito educado e cavalheiro. Mas ela queria ir logo ao hospital, Charles deveria estar preocupado com sua demora.
Richard já tinha tudo planejado. Serviu um café a Susie, antes de irem ao hospital. Ela aceitou por pura educação, pois se sentia oprimida, uma sensação de perigo e desconforto que ela não conseguia identificar ou descobrir o porque.
Richard encostara-se na lareira bebericando seu café, seus olhos tinham um brilho diferente, Susie pode notar.
Ele tomou o café rapidamente, querendo ir logo ver o marido no hospital.
Sentiu-se tonta, tão cansada. Deveria ser a noite insone que havia passado, sozinha e apavorada na cabana na montanha.
Que férias estúpidas aquelas. Tudo de ruim aconteceu. E agora este sono estranho.
Seus olhos estavam se fechando involuntariamente. Ela viu Richard sorrir de forma estranha antes de apagar.
Quando acordou estava sozinha no escuro. Apenas a luz da lua iluminava a sala, a lareira a muito estava apagada. Estava frio.
Ela estava nua, por isso estava tão frio...Mas por que ela estava nua? Não conseguia lembrar-se de nada, apenas aquela dor de cabeça fortíssima.
Tentou levantar-se, mas caiu ao solo novamente. Estava tonta demais. O que será que havia acontecido. Onde estaria Richard? Será que ela a havia drogado? E por que estava nua? Tantas perguntas sem solução. E o que seria aquela viscosidade entre suas pernas? Por que estava suja de esperma? Ah meu Deus, o que haviam feito com ela?
Sem querer pensar mais Susie se vestiu e tentou sair da sala.
Cambaleou até a porta, mas estava trancada. Ela estava presa. Foi até as janelas, todas trancadas. Sem pensar ela pegou um pedaço de madeira que não havia queimado totalmente e quebrou o vidro de uma janela. Como não era muito alto, resolveu pular era sua única saída.
O vidro quebrou-se com grande ruído. Ela se jogou da janela e caiu pesadamente no gramado. Mas não quebrou nada, ainda bem. Neste momento ouviu um ruído no quarto ao lado do que havia escapado. Só podia ser Richard. Ele deve ser louco, pensou. Um louco homicida.
Sem pensar para onde ia, saiu correndo em direção a colina logo á frente da casa. Havia neve e ela escorregava e caia a todo instante.
Ouviu então um uivo aterrorizante vindo da casa. Como um lobo.
Correu ainda mais rápido, sem olhar para trás, já subindo a colina. A neve dificultava seu avanço e ela caia a todo instante. Suas mãos já estavam sangrando. Seu corpo todo doía.
Um urro selvagem veio de trás dela. Sem mais força para correr, ela se deixou ficar no chão, aguardando o que viesse.
Ela viu um animal preto e enorme vir em sua direção. Na hora que ele ia atacar ouviu-se um tiro. O animal soltou um urro terrível e correu em direção á floresta.
O fazendeiro Tom chegou correndo para ver se ela estava bem.
_Acho que peguei o desgraçado. Minhas balas de prata vão dar cabo dele.
_ Mas o que era aquilo Tom?
_Você escapou do lobisomem de Birminghway.
_ Lobisomem? Mas como Tom, isso deve ser brincadeira.
_Não é Susie, infelizmente não é. Era ele que estava dizimando minha criação de ovelhas. Venha, vamos para minha casa, minha esposa vai cuidar de você.
E assim Susie voltou a vida normal em poucos dias. Seu marido já havia se recuperado o suficiente para voltar para casa. Eles deixariam o lugar no dia seguinte e iriam voltar para casa.

A VOZ DA BESTA – V – EPÍLOGO

Onde estou agora, os rios são como serpentes prateadas. Os campos são quadrados verdes e as árvores são como pequenas flores. Abaixo de mim, seu mundo é apenas um mapa. Eu vejo as ovelhas – elas são do tamanho de pedras na praia. São sujas e cinzentas contra a neve que ainda cobre os campos. A floresta do lado da colina é negra como a noite. Uma fina linha de fumaça sobe da casa no sopé da colina. Minha colina.
Dois homens saem da casa. Eles se parecem com homens de brinquedo. Eles entram em seus carros de brinquedo e ouço a partida. Soa como um vôo zangado. Devo chamá-los apenas por brincadeira? Apenas para ver, mesmo daqui, se ela ainda teme? Eu posso ver muito bem, você sabe. Tenho os olhos de um pássaro que mata.
Então o que aconteceu comigo, você pode perguntar?
Você se lembra do que eu disse? Não, provavelmente não. Direi novamente.
“Não existe nada que você faça que escape de mim. Vocês podem pensar que podem nos matar com suas balas de prata. Mas vocês não podem”.
Bem, sim, o fazendeiro me acertou com suas balas de prata. Então meu corpo se tornou uma pedra – uma das pedras pelas quais ele passou enquanto me procurava. Se você pensa que isso soa impossível, olhe cuidadosamente as grandes pedras que ficam em colinas dos lugares desertos. Olhe nos olhos e faces destas pedras. Pergunte a si mesmo que mentiras estão aprisionadas dentro delas.
Eu voltei para um curto período para o mundo da escuridão e dos mortos vivos. Mas como havia dito, sempre precisarei de sangue dos seres vivos. Sempre precisarei andar em seu mundo. Não posso ficar longe. Azar de vocês.
“Nós nos movemos de um corpo a outro, de um lugar a outro”.
Desta vez, estou cansado. Você possivelmente não pode entender quão cansado isso me faz, tempo após tempo, tendo que achar um novo esconderijo. Então, não, não irei de novo andar pela terra. Ficarei aqui no meio desta floresta e campos.
Agora eu sou um dos pássaros que voam sobre as montanhas. Um dos pássaros que procuram animais para matar e comer. Isto é bom. De onde estou, posso ver tudo.
É verdade que meu plano não funcionou como previa. Ela era mais forte do que eu imaginei. Ela escapou de mim quando pensei que já fosse minha. Cometi um erro. Meu plano não foi suficientemente cuidadoso.
Mas tem algo que ela ainda não sabe. E agora esperarei que isso aconteça.
Esperar? O que isso significa? Que o tempo passa? Vocês pessoas, sinto muito por todos vocês. Vocês falam sobre começos e fins. Mas o começo e o fim do mundo estão além de seu entendimento. Vocês são tão estúpidos. Não sabem que o começo já esta acontecendo? O som vindo do espaço, que é captado pelos cientistas em seus rádios – eles pensam que é o som de como o mundo começou. Mas é o som perdido de tempos perdidos, uma risada preguiçosa. E os estranhos animais que as pessoas falam – como o Monstro de Loch Ness na Escócia, o Yeti no Himalaia, O Grande Gorila no Brasil, os Chupacabras no México, os Vampiros na Europa Central – o que são eles? Eles são os filhos da escuridão. São partes da brincadeira. Carregam mensagens do grande jogador.
Desculpe, estou esquecendo. O que eu ia mesmo dizer? Você está esperando para saber, não está? Ok ok, só porque perguntaram é que vou responder.
Ela irá ter um filho em breve. Quando olhar através da lente da máquina de fotografias ela irá ver que EU sou o pai. A câmera não mente, mas mostra o mundo como ele realmente é. Com sua câmera ela vê coisas que seus olhos não podem ver.
E eu prometo pelo meu próprio pai Lykaon, que matou uma criança para dar a Zeus como comida, que eu voltarei para pegar o que me pertence.

By Ana Kaya

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ponto de Repouso

Marmóreo o meu leito? Ainda não.
Me esbaldo em colchões mais resilientes
Das gentes com quem vivo, da razão
Que cerca o que creio, ainda que descrente.

Gelado o meu repouso? Nem por nada
A vida não me é clemente, mas é mestra
E nessa mescla de viver e ser vivido
Sempre presto atenção no arranjo e notas

Que notas em mim, portanto és cúmplice
Cumpriste tua parte e eu a minha
Com um pé na sala, outro na platéia da ladainha
Sempre uma Eurídice silente.

Epicuro não me faz de si discípulo
Escapulo dessa ratoeira tola
Mas a essência do que vivo, essa mola
Me arremessa a distância respeitável.

Serei memorado, não memorável,
Serei lembrado por algumas coisas poucas
Nem lembráveis pelo que tinham de instável
Nem marcantes, pois nem eram assim loucas

E retorno a um leito, não repouso
Não o seria só por ser aonde pouso
Mas um plano, um equilíbrio intermediário
Onde escrevo, letra a letra, o meu diário.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

CEMITÉRIO



SOBRE O IMACULADO VÉU DA MORTE
SUCUMBINDO INERTE EM MINHA CRIPTA
ATRAVÉS DOS VITRAIS VEJO AO ENTARDECER
QUE HOJE VEIO A ANUNCIAR-SE
DE FORMA ESCARLATE
FINDO CREPÚSCULO QUE TRÁS A LUA
A LIBERTAR ESPÍRITOS E ALMAS PAGÃS
QUE VAGAM LIVRES NO CEMITÉRIO
EM BUSCA DE ALENTO E COMPREENSÃO
ATRAVÉS DOS SÉCULOS SEMPRE A VAGAR
NO PURGATÓRIO DE SEU PENSAR
ACORRENTADO A SUAS MAZELAS
DILACERADO POR SOFRIMENTO
APRISIONADO ENTRE DOIS MUNDOS
CUMPRINDO A PENA DE SEUS PECADOS
PUTRIFICADO
EM MEIO A SARJETA
ESPERAM APENAS QUE A DEUSA MORTE
VENHA OS LEVE
VENHA OS LIBERTE
DEI LHES A PAZ NA MORTE
SEJA NO CÉU
SEJA NO INFERNO
DESDE QUE OS LIVRE
DO CEMITÉRIO.



FELIX RIBAS

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Última Mente

Há tempos não tenho pesadelos.

Será esse
o engano dos suicidas?

O falso oásis
faz a sentinela, ao vê-lo
abandonar coragem, cancela,
atalaia
e escolher a desídia.

Essa Miragem vale mais
que a acídia?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aperto no Coração




Aperto no Coração - Por Adriano Siqueira -

Tão apaixonado eu era que nem percebi o que estava fazendo.
Lilith pedia chorando que, se eu realmente a amava, deveria esmagar o passarinho que estava em minha mão.
Eu, com a força que tinha! Jovem, corajoso e destemido, simplesmente não conseguia fazer aquilo!
Ela se virou e me disse que eu era um fraco, um idiota!
Então, ela partiu sem dar adeus.
O tempo passou e eu agora, estava com outra mulher. Uma noite, escutei um barulho na floresta e fui investigar sozinho.
Lilith apareceu de novo... Queria mostrar que estava diferente e mais adulta do que antes. Levou-me para uma árvore ali perto e me pediu delicadamente que eu deixasse a outra mulher e ficasse com ela. Disse que gostaria de continuar compartilhando o amor que tinha comigo no passado.
Eu neguei seu amor novamente, mas desta vez ela entendeu e como prova da sua amizade ela me levou até uma grande árvore e ofereceu-me uma fruta. Experimentei... Era adorável e açucarado.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, um raio atingiu a árvore nos jogando para longe. Logo, uma tempestade se iniciou.
Quando olhei para Lilith fiquei impressionado com o que vi.
Ela estava sem sentidos, seus dentes estavam maiores e pontiagudos e seu rosto estava envelhecendo muito rápido.
Assustado, corri para casa, a tempestade estava mais forte, as árvores eram arrancadas do chão e lançadas pelo caminho.
Minha amada estava me esperando. Ela tremia muito. Nunca sentimos tanto frio. Era perigoso ficar ali. Os raios estavam acabando com tudo. Coloquei a minha amada no colo e fugi sem olhar para trás. Nada mais eu podia fazer. Então, aos poucos fui percebendo que estávamos completamente nús.
E a Lilith? Será que ela ainda está viva? Será que um dia ela vai se vingar? Bom... Depois eu penso nisso... Agora eu tenho um novo mundo para construir.

Autor: Adriano Siqueira

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nas pegadas da menina

Se pode pensar que o norte é estar próximo
E que distante está a morte, sem orientação
Sopram ventos primavaris anunciando o verão
Do planeta, ah, a Terra! Tão pequena, e vaga
Ao que se acrescentam ondas do vasto mar
Ao que se somam os sonhos maiores de amar
Não há no mundo tão justa e perfeita paga

domingo, 1 de novembro de 2009

Meta




--A senhora reconhece algum deles? O detetive apontou através do vidro: Seis homens enfileirados. Rosa estava segurando o choro enquanto olhava atentamente, um a um.
-O terceiro.
-Tem certeza?
-Olha, certeza, certeza, eu não tenho. Sofro de miopia, não vejo bem de longe. Eu tenho certeza que os outros não são, a pele era morena como a do terceiro.
-Hum...O policial coçou a cabeça e disse ao colega: Traga o rapaz aqui, o terceiro, vede os olhos dele para que não veja.
-Não. Não precisa. Deixe ele me ver. Quero que saiba que fui eu. Não me importo. Trouxeram o rapaz e a moça apoiou o braço na parede, estava enojada, levou a mão à boca.
-Está se sentindo bem? Quer um copo d'água”? O policial percebeu sua súbita palidez.
-Não. Não precisa, obrigado. Abaixou o rosto e vomitou no canto da sala.
-Por favor Dona Rosa, diga logo e retiro o meliante, assim se sentirá melhor. Reconhece o pedófilo que estuprou sua filha?
-Não.
-Não?
-Não é ele. Tenho certeza. Saiu em direção à porta e quando passou ao lado do rapaz, parou e olhou bem nos seus olhos. O rapaz virou de costas, não queria que ela mudasse de idéia. Dona Rosa, como se tivesse planejado, o abraçou por trás enquanto, ao mesmo tempo e sem piedade, enfiou fundo uma faca afiada em seu coração. As mãos juntas, firmes, não desprendiam, por nada. O sangue jorrava junto aos gritos do bandido, os policiais tentando tirá-la e a lâmina fundo, contraindo toda musculatura do corpo que estrebuchava.
-Tira ela...solta! Num tranco tiraram Dona Rosa e a faca ficou lá, cravada fundo enquanto o rapaz agonizava no chão da sala. Dona Rosa segurou o peito e num segundo viu tudo escurecer. Enfartou ali mesmo. Enquanto faziam os primeiros socorros, a mulher abriu os olhos e sussurrou:
-Perda de tempo, eu vou morrer.
-Não. A senhora tem que reagir, fique calma. Teve uma parada cardíaca e o médico de plantão teve que usar o desfibrilador. Por sorte tinham comprado um na semana passada depois que um policial falecera por demora no procedimento.
--Ela voltou...A senhora vai ficar bem, vamos levá-la ao hospital.
-Não...deixe-me morrer. O pulso estava fraco. O policial disse:
-Dona Rosa, o pedófilo está vivo, não morreu. Ele escapou e a senhora também vai viver. Ela abriu os olhos a procura do infeliz e começou a reagir.-Pronto. Apliquei um sedativo, agora a levem ao hospital.
-Por que disse que o cara estava vivo? Ele já agonizou faz tempo.
-Ela reagiu não foi?



Me Morte

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estou de Saída



Sei que sou denso, talvez pesado demais para ti. Talvez um fardo sofrível, então vamos nos distanciar... tu ficas no teu canto e eu no meu. Pela boa vizinhança, vamos ficar distantes, vamos fazer de conta que não existimos para o outro, pode ser divertido. Fique em tua casa e eu vou para um abismo ou montanha, tanto faz, estarei em meu território por dias ou semanas.
Tu reclamas que ando calado com olhar perdido, ouvidos desviados e com o nariz para baixo, todo pensativo e sensível ao que desconhece. Não é dor, não é desamor, nem fofoca. Não quero desabafar, nem chorar. A verdade é que o que penso e sinto não é expressível a ponto de ser captado por sentidos comuns, o que se passa por dentro de minha pessoa só eu sei.

Não adianta pedir que eu me explique, que me abra para ti, para que depois crie ou reforce dúvidas em sua mente. Não adianta eu dizer o que não é possível de entender. Minha voz e letras não dizem nada que te leve a algum lugar, meu abismo é fechado e só meu. Essa é minha profundidade e não posso te prender, portanto não se prenda a minha pessoa.
Desista de tentar desvendar um enigma tão complexo, isso só vai te tirar tempo. Umas coisas são mistérios, outras são segredos, mas todas são incompreendidas. Não quero falar, não tenho palavras belas. O que tenho é tédio do tipo para exportação, pode ser atacado ou varejo? Escolha logo sua leva, pois a concorrência é ferrenha.

Estou de saída ou em fuga, já peguei o que preciso, então não me procures e não vou te procurar. Respeite minha individualidade e privacidade ou essa será nossa última conversa. Não quero falar com a voz embargada, não quero derramar lágrimas aprisionantes e nem quero sentir o terror da perda, é melhor viver desgarrado, mas não sem antes levar um abraço apertado.
Sou livre e não vou mudar, essa é minha condição, não tente me parar. Não sou doméstico e nem dependente, então esqueça os grilhões ou amarre-se neles. Eu vou embora. Irei me aventurar e trarei façanhas e cicatrizes lindas. Enquanto eu não voltar estaremos juntos pela mente.


- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2009.


Foto: Montanhas (sem referência).