Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Domingo, 5 de Julho de 2009
Eutanásia - Flá Perez
Ladie sempre vinha chamar-me de madrugada para observá-la dar à luz seus filhotes.
Foram três ninhadas, ao longo dos onze anos que viveu comigo.
Uma perfeição: oito tetas para oito boquinhas fortes.
Cada uma pegava uma mamiquinha dela ao final de um parto simples e rápido.
Era engraçado como, ao final da gestação, aparecia no meio da noite,
bafejando meu rosto até me acordar.
Hálito quente, esbaforida,
a calma companheira de sempre nessa hora era toda preocupação e pressa.
Não entendia o porquê da necessidade da minha presença.
Eu era completamente inútil em todo o processo.
Levantava correndo, Ladie ia na frente até o local que havia preparado por instinto
e fazia tudo sozinha.
Eu ficava lá, olhando maravilhada.
Depois de um tempo percebi que Ladie chamava-me mais por amizade,
apoio moral, quem sabe por não entender direito o que estava acontecendo.
Até a hora em que despontava o primeiro serzinho de pelos molhados.
Então ela parecia que sempre soubera de tudo.
Talvez seja porque da primeira vez, quando o primeiro filhote nasceu,
ela ficara olhando, orelhas em pé, o bichinho mexer-se, sem fazer nada.
Peguei o cãozinho, mostrei-o à mãe de primeira viagem, falei-lhe...
Então Ladie, como saindo de um encantamento, começou a lamber as narinas do bichinho
até desobstruir as vias aéreas e ouvirmos seu chorinhore.
Depois retirou restos de líquido amniótico, placenta...
faziatudo certinho daí por diante.
Cheguei a ter três gerações com cara de Ladie dando à luz na minha sala de jantar
(seu cantinho era sempre o mesmo e suas filhas a imitavam).
Seus descendentes povoaram a cidade onde morava.
Mas aos dez anos de idade começou a mancar da pata dianteira.
Não, não só a pata, a perna inteira mancava.
Seu andar parecia o de um homem com muletas.
Fomos ao veterinário e lá se constatou o de sempre: câncer.
Todas as nossas cadelas morriam de câncer na velhice, parecia uma praga.
Contudo eu já me acostumara a essas vicissitudes. Em sua maioria,
eram inoperáveis os tumores das “cãs” (como as chamava-mos carinhosamente) .
Dito e feito: o câncer da perna havia penetrado o pulmão de Ladie e só restava sacrificá-la. Acontece que não fazíamos esse crime de misericórdia
até que se tornasse insustentável a situação.
Achávamos que nossos bichos de estimação deviam aproveitar sua vida até o fim,
o que era, em teoria, fácil, pois não sabiam que iam morrer.
A notícia da morte certa não os afetava em nada.
Foi assim que Helga, a pastora alemã da minha mãe,
ficara viva até os tumores rasgarem suas mamas.
Aí sim pedíamos a injeção letal: diante do inexorável sangrando a olhos vistos.
Os veterinários diziam que elas não sentiam dor, mas eu não acreditava.
Se nos humanos doía tanto a ponto de encherem-se de morfina, porque não nos cães?
Foi assim que comprei seringas, agulhas e um forte remédio injetável pra dor
- um antiinflamatório- tudo com receita e aval do veterinário.
Duas vezes por semana aplicava nela, e quando isso acontecia,
Ladie parava de mancar tanto e chegava até a correr e brincar.
Até que aconteceu. Eu estava dormindo -eram mais de quatro da madrugada-
quando senti o bafo quente em meu rosto, a mesma sensação que me acordava
quando Ladie ia parir. Chamava por mim novamente.
Acordei, e ela não estava lá. Algo dentro de mim obrigou-me a levantar mesmo assim
e correr até a sala. Lá no cantinho de antigamente, Ladie jazia, olhos fechados,
respiração entrecortada, numa poça de sangue.
Estava desacordada, mas era patente que ainda assim sentia muita dor.
Na família ocorria por vezes nascer um médium, mas até então essas coisas
nunca haviam me acontecido.
A mediunidade, dizem, pula uma geração ou outra e minha mãe “sentia” coisas.
Achei que estava livre dessa sina, mas minha avó paterna,
com quem assustadoramente me pareço, além de “sentir”, “via” coisas bem piores.
Afinal eu podia ter um pouco de mediunidade residual...
Tive então a certeza que Ladie fora me chamar para ajudá-la uma última vez.
Se a força mental era dela ou minha, não me importou na hora tanto quanto me importa
agora que sei mais coisas...
Naquela época pensei rápido, rápido demais até: fui até o quarto de minha filha.
Ela dormia, não ia ver o que eu estava para fazer.
Peguei a seringa das injeções contra dor, coloquei agulha, puxei o embolo até o fim,
enchendo a seringa de ar. Abri as pernas dianteiras de Ladie, mirei no coração,
ou onde sabia que ele estaria, e apliquei todo o ar de uma vez só no coraçãozinho dela.
A sensação foi horrível: a ponta da agulha penetrando rápida, o enorme suspiro que deu
antes da morte. E expirou. Tudo muito veloz e, pensei, indolor. Estava morta.
Chorei de pena e remorso. Consolei-me pensando que Ladie havia me chamado
exatamente para isso: terminar seu sofrimento.
Acordei meu marido, pedi para enterrá-la logo, antes que nossa filha acordasse,
mas não contei como morrera. Deitei na cama e não dormi.
Meu espanto foi enorme ao amanhecer, quando minha filha, que não tinha nem cinco anos, levantou-se da cama e disse:
— Mamãe, a Ladie me contou que você a machucou. É verdade?
Foram três ninhadas, ao longo dos onze anos que viveu comigo.
Uma perfeição: oito tetas para oito boquinhas fortes.
Cada uma pegava uma mamiquinha dela ao final de um parto simples e rápido.
Era engraçado como, ao final da gestação, aparecia no meio da noite,
bafejando meu rosto até me acordar.
Hálito quente, esbaforida,
a calma companheira de sempre nessa hora era toda preocupação e pressa.
Não entendia o porquê da necessidade da minha presença.
Eu era completamente inútil em todo o processo.
Levantava correndo, Ladie ia na frente até o local que havia preparado por instinto
e fazia tudo sozinha.
Eu ficava lá, olhando maravilhada.
Depois de um tempo percebi que Ladie chamava-me mais por amizade,
apoio moral, quem sabe por não entender direito o que estava acontecendo.
Até a hora em que despontava o primeiro serzinho de pelos molhados.
Então ela parecia que sempre soubera de tudo.
Talvez seja porque da primeira vez, quando o primeiro filhote nasceu,
ela ficara olhando, orelhas em pé, o bichinho mexer-se, sem fazer nada.
Peguei o cãozinho, mostrei-o à mãe de primeira viagem, falei-lhe...
Então Ladie, como saindo de um encantamento, começou a lamber as narinas do bichinho
até desobstruir as vias aéreas e ouvirmos seu chorinhore.
Depois retirou restos de líquido amniótico, placenta...
faziatudo certinho daí por diante.
Cheguei a ter três gerações com cara de Ladie dando à luz na minha sala de jantar
(seu cantinho era sempre o mesmo e suas filhas a imitavam).
Seus descendentes povoaram a cidade onde morava.
Mas aos dez anos de idade começou a mancar da pata dianteira.
Não, não só a pata, a perna inteira mancava.
Seu andar parecia o de um homem com muletas.
Fomos ao veterinário e lá se constatou o de sempre: câncer.
Todas as nossas cadelas morriam de câncer na velhice, parecia uma praga.
Contudo eu já me acostumara a essas vicissitudes. Em sua maioria,
eram inoperáveis os tumores das “cãs” (como as chamava-mos carinhosamente) .
Dito e feito: o câncer da perna havia penetrado o pulmão de Ladie e só restava sacrificá-la. Acontece que não fazíamos esse crime de misericórdia
até que se tornasse insustentável a situação.
Achávamos que nossos bichos de estimação deviam aproveitar sua vida até o fim,
o que era, em teoria, fácil, pois não sabiam que iam morrer.
A notícia da morte certa não os afetava em nada.
Foi assim que Helga, a pastora alemã da minha mãe,
ficara viva até os tumores rasgarem suas mamas.
Aí sim pedíamos a injeção letal: diante do inexorável sangrando a olhos vistos.
Os veterinários diziam que elas não sentiam dor, mas eu não acreditava.
Se nos humanos doía tanto a ponto de encherem-se de morfina, porque não nos cães?
Foi assim que comprei seringas, agulhas e um forte remédio injetável pra dor
- um antiinflamatório- tudo com receita e aval do veterinário.
Duas vezes por semana aplicava nela, e quando isso acontecia,
Ladie parava de mancar tanto e chegava até a correr e brincar.
Até que aconteceu. Eu estava dormindo -eram mais de quatro da madrugada-
quando senti o bafo quente em meu rosto, a mesma sensação que me acordava
quando Ladie ia parir. Chamava por mim novamente.
Acordei, e ela não estava lá. Algo dentro de mim obrigou-me a levantar mesmo assim
e correr até a sala. Lá no cantinho de antigamente, Ladie jazia, olhos fechados,
respiração entrecortada, numa poça de sangue.
Estava desacordada, mas era patente que ainda assim sentia muita dor.
Na família ocorria por vezes nascer um médium, mas até então essas coisas
nunca haviam me acontecido.
A mediunidade, dizem, pula uma geração ou outra e minha mãe “sentia” coisas.
Achei que estava livre dessa sina, mas minha avó paterna,
com quem assustadoramente me pareço, além de “sentir”, “via” coisas bem piores.
Afinal eu podia ter um pouco de mediunidade residual...
Tive então a certeza que Ladie fora me chamar para ajudá-la uma última vez.
Se a força mental era dela ou minha, não me importou na hora tanto quanto me importa
agora que sei mais coisas...
Naquela época pensei rápido, rápido demais até: fui até o quarto de minha filha.
Ela dormia, não ia ver o que eu estava para fazer.
Peguei a seringa das injeções contra dor, coloquei agulha, puxei o embolo até o fim,
enchendo a seringa de ar. Abri as pernas dianteiras de Ladie, mirei no coração,
ou onde sabia que ele estaria, e apliquei todo o ar de uma vez só no coraçãozinho dela.
A sensação foi horrível: a ponta da agulha penetrando rápida, o enorme suspiro que deu
antes da morte. E expirou. Tudo muito veloz e, pensei, indolor. Estava morta.
Chorei de pena e remorso. Consolei-me pensando que Ladie havia me chamado
exatamente para isso: terminar seu sofrimento.
Acordei meu marido, pedi para enterrá-la logo, antes que nossa filha acordasse,
mas não contei como morrera. Deitei na cama e não dormi.
Meu espanto foi enorme ao amanhecer, quando minha filha, que não tinha nem cinco anos, levantou-se da cama e disse:
— Mamãe, a Ladie me contou que você a machucou. É verdade?
Sábado, 4 de Julho de 2009
Camaleoas
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
MEU MUNDO INSANO - por Adriano Siqueira

MEU MUNDO INSANO
Ja sei o que veio fazer aqui.
Quer mostrar que tenho cura,
Que posso ser normal.
Sei o que quer.
Quer transformar meu mundo
Tirar minha insanidade
Tentar ser o salvador do meu caos.
Então tente...
Quem sabe coloco seu cadaver
no meu canto preferido.
Apenas para lembrar
Do mundo que quer me salvar
Sou dono.
abraços
adriano siqueira
Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
Aquilo...

.
Que sentimento é esse que faz uma mulher abandonar marido, filho e uma casa luxuosa para viver num porão sujo e coberto de mofo, com uma pessoa insana, consumida pelo ciúme a paixão lasciva?
Eram duas horas da tarde. Havia cheiro de sexo pelo cômodo, uma panela de caldo de galinha no fogão e duas maçãs na fruteira sobre a mesa.
-Ana...Você está arrependida não é?
-Não.
-Quer me convencer de que não sente saudades do luxo, das jóias, das atenções do seu marido?
-Eu sinto falta de meu filho...
-Podemos buscá-lo.
-Não. Está melhor lá.
-Eu amo você.
-Eu também te amo.
-Sempre vai amar?
-Sempre.
-Não minta. Em breve vai acordar e fugir daqui.
-Acha que para mim é um sonho?
-Não é?
-Nunca sonhei com um porão fedido, tampouco com restos de frutas que doam na feira, com caldo de galinha quando o estômago clama por um bom arroz e feijão...
-Eu não disse...Reclama.
-Eu sonhei com um homem que me amasse acima de todas as coisas, que seu cheiro provocasse em mim essa febre que não cessa, que seu toque me levasse ao céu em um segundo, que me completasse, que comesse comigo um pedaço de fruta podre e me beijasse depois com sabor de morangos silvestres, que eu amasse a ponto de não ver seus defeitos e se insano fosse, para mim um ser perfeitamente apaixonado, alucinadamente amoroso, ciumento para o mundo, cuidando do que é seu para mim, e nas vezes que perdesse o controle e me batesse por fantasias loucas de um transtornado que imagina o ser amado em traição, eu sentisse apenas amor, carinho, dedicação, como uma amada cuidando de seu parceiro no leito, pois ciumes também é doença como qualquer constipação...
-Você é louca...
-Somos os dois...
-Até quando?
-Não sei...Quanto tempo durou seu amor anterior?
-Não me lembro.
-Dois meses?
-Até o dia que pensei tê-la visto com outro e a esfaqueei...
-Com requintes de crueldade...
-Sim...Cortei os dedos, os olhos, o clitóris, os bicos dos seios...Tem medo que aconteça com você?
-Não. Eu o amo. Mas quero que me prometa uma coisa...
-Diga...
-Se acontecer...Tire o coração primeiro.
-Por que o coração?
-Por que o simples fato de saber que vou morrer e ficar longe de você fará com que doa bem mais que todas as facadas que eu leve.
-E que faço eu depois que estiver morta?
-Que fez da outra vez?
-Fugi...Mas foi diferente. Ela nunca me amou. Era uma simples prisioneira.
-Eu sei, você me contou...A roubou numa cidade vizinha.
-Sim.
-Então que quer fazer depois que eu morrer?
-Transar...
-Ora, transe então...
-Mas você estando morta não vai poder fazer aquilo...
-É mesmo...Nossa, criou-se um problema agora.
-Eu não sei mais transar se não fizer aquilo...
-Você gosta?
-ADORO!
-Então nunca me mate...
-Não mato. Mas você tem que me prometer algo...
-Diga.
-Nunca vai morrer...Eu não saberia viver sem aquilo.
-Morrer de morte morrida? De doença?
-Sim.
-Mas como posso prometer uma coisa dessas?
-Não sei porra! PROMETA!
-E se eu fico doente e pego uma pneumonia...
-Não morra! PROMETA!
-Eu...
-Prometa ou TE MATO!
-E vai ficar sem aquilo?
-NÃO!!!!!
-Ok...Prometo nunca mais falar de morte. Se não falamos não atraimos ok?
-OK
-Está tudo bem agora?
-Não...
-Não? O que quer mais?
-Aquilo...hehe....
.
.
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Vivente na Interseção
Sou Mensageiro Obscuro, filho de Anúbis e discípulo da Thoth,
Vivo em missões no mundo dos mortos e dos vivos,
Andei de leste a oeste, perdi-me ao sul, mas encontrei o norte,
Estudei e lutei, falei línguas mortas e conheci seus nativos.
Tenho Ba e Ka a montar Akh, a incrível Alma Imortal,
Pergunte-me agora, nem toda resposta irei lhe dar,
Estou em mundos estranhos sem julgar o início e final,
Tenho ainda mais conhecimentos e segredos a desvendar.
Sou um vivente na interseção, um buscador de experiências,
Livre espectro, sem raízes e crias em viagens astrais,
A descobrir muito mais que algumas filosofias e ciências,
Estou muito distante de meras interpretações mortais.
Tenho a vida e morte unidas à minha existência,
Solitário em estradas estreitas, um grande miscigenado,
Visitei o Duat e descobri seres com virtudes da potência,
Dos deuses não sou servo nem escravo, apenas um aliado.
- Mensageiro Obscuro.
Outubro/2007.
-- Glossário --
Akh= Termo usado para referir-se a alma imortal conseguida no pós-vida. Era a força divina.
Ba = Correspondia ao espírito, era a parte mental do humano.
Duat = Morada dos deuses egípcios, local místico poderoso.
Ka = Correspondia a energia vital do humano.
Vivo em missões no mundo dos mortos e dos vivos,
Andei de leste a oeste, perdi-me ao sul, mas encontrei o norte,
Estudei e lutei, falei línguas mortas e conheci seus nativos.
Tenho Ba e Ka a montar Akh, a incrível Alma Imortal,
Pergunte-me agora, nem toda resposta irei lhe dar,
Estou em mundos estranhos sem julgar o início e final,
Tenho ainda mais conhecimentos e segredos a desvendar.
Sou um vivente na interseção, um buscador de experiências,
Livre espectro, sem raízes e crias em viagens astrais,
A descobrir muito mais que algumas filosofias e ciências,
Estou muito distante de meras interpretações mortais.
Tenho a vida e morte unidas à minha existência,
Solitário em estradas estreitas, um grande miscigenado,
Visitei o Duat e descobri seres com virtudes da potência,
Dos deuses não sou servo nem escravo, apenas um aliado.
- Mensageiro Obscuro.
Outubro/2007.
-- Glossário --
Akh= Termo usado para referir-se a alma imortal conseguida no pós-vida. Era a força divina.
Ba = Correspondia ao espírito, era a parte mental do humano.
Duat = Morada dos deuses egípcios, local místico poderoso.
Ka = Correspondia a energia vital do humano.
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Domingo, 28 de Junho de 2009
Insanidade.

Ouço o que a noite fala. E me calo;
e falo pouco de amor qualquer, pois
me dano em lua cheia.Encontra-me Falo;
Outra vez me calo a fundo, pois irei amá-lo.
À meia-noite ameaça declamar o enigma
as cortinas fecham-se onde penetra agonia
onde fazia frio, talvez em um prazer confuso
de absurdo choro, envolvendo-me à redenção.
As rosas pretas absorvem meu veneno selvagem
te tento,atenta por milhares de maneiras inocentes
entregando-me a tal luto, pois esquecerei de morrer.
A noite explora a palidez cínica do meu outro lado
do outro a brisa áspera condena-me em luzes mortais
deixando apenas meu coração que chora, nunca de amor.
Émerson Sarmento
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
P A L A V R A S

PALAVRAS
palavra incerta..
dói
quebrando tabus
socando dedos..
corroendo a alma
vomitando o cérebro
dói no desejo do poeta
como a flor
em sangue
aberta ferida
toca o lábio
em vermelho
treme
na boca do coração
existe no instante
da fração
permanece
e se abre
riscando linhas
no conta gota
d’alma
** Gaivota **
* * * * * * * * * * * *
Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
LUTO ETERNO
LUTO ETERNO
Oh! Viúvo que já provou ardor pleno
Mas não viveu o sagrado matrimônio.
Bebeu o mais diviníssimo veneno
Amando um anjo, lúgubre demônio.
Oh! Viúvo que já provou ardor pleno
Mas não viveu o sagrado matrimônio.
Bebeu o mais diviníssimo veneno
Amando um anjo, lúgubre demônio.
Pelo demônio, quanto ardor lascivo!
Quantos desejos, quantos sacrifícios,
Quanto amor, quanto amor, quantos suplícios!
E hoje nem sei quem sou e nem se estou vivo!
Por isto, converti-me em rubro Luto,
Comecei a clamar pela bela Morte
E a sentir medo eterno de meu Sonho.
Do Sonho, o pesadelo mais tristonho...
Da Morte, o servo mais mórbido e forte...
Do Luto, nobre e virgem prostituto!
Rommel Werneck
Blog Poesia Retrô, a poesia de sempre:
Entrevista com Mariângela Padilha ( Me Morte):

I E-BOOK POESIA RETRÔ, QUER PARTICIPAR? AINDA DÁ TEMPO
OU ENTRE EM CONTATO COMIGO
DESAFIO ROLETA RUSSA, PARTICIPE!!

Domingo, 21 de Junho de 2009
Passageiros da ilusão
Das lembranças da infância, guardo sempre as das brincadeiras na charqueada dos avós e a companhia de Dinho. Alfredo era o nome dele. Moleque franzino de olhos acesos e dentes alvíssimos no rosto cor de carvão. Devia ter sete ou oito anos, ninguém sabia. Naquela época era comum, quando chegava o escrivão, acorrerem todos a registrar os filhos nascidos entre o período e, assim, em muitas famílias era comum o Tonho ser irmão mais velho do que o Tonico e terem registro de nascimento no mesmo dia e ano.
Dinho era o filho número nove entre os doze de Alaíde. A negra Alaíde era viúva. Ainda moça perdera o marido quando esse, ao pular a janela do rancho da comadre Olga, enredara a bombacha no umbral e o marido ultrajado o alcançara com dois golpes do facão de esquilar, lavando a honra.
Sem recursos, Alaíde fazia serviços a uns e outros e também ao pároco. (Diziam que o filho menorzinho era a cara do padre, cuspido e escarrado.) Ela era encarregada de lavar e engomar os panos da igreja e Dinho servia de coroinha aos domingos, na única missa, às dez horas. Depois disso, Dinho pegava carona no Chrisler do meu pai e seguia, acenando com o chapéu aos passantes, até o casarão de “Dom Domingo”, meu avô materno.
Dinho almoçava na mesa com os empregados e depois ficava servindo de pajem da “Ducinha” como ele me chamava, não sei se por não saber pronunciar meu nome ou outro motivo qualquer. Perdeu o cargo de me pajear quando meus pais viram uma de nossas brincadeiras: Eu, em meu vestido domingueiro de broderie branco com fitas de veludo e saias armadas, sapatos de verniz e meias brancas. Dinho agarrava-me pelas fitas de organza com picô das tranças e, com uma réstea de cebola vazia, tocava-me aos gritos de “eia” enquanto eu corria à volta do potreiro.
Terminada a hora em que os adultos faziam a digestão conversando na varanda, era hora de ir embora. Antes de entrar, Dinho cuspia nas mãos e apagava o vestígio de poeira dos meus sapatos de verniz.
Depois disso, eu só o via aos domingos na igreja. Sempre que eu podia, levava de casa um pedaço de rapadura que, disfarçadamente colocava na cestinha enquanto Dinho recolhia os óbulos. De lá, também, Dinho foi dispensado depois que Padre Dirceu o pegou tomando o vinho da missa, com o bolso cheio de hóstias. Acho que as levava para acrescentar à refeição dos irmãos.
Longe da igreja, Dinho foi trabalhar como engraxate e eu o via no trajeto para a escola, sempre com a caixa às costas rumo à praça.
Um belo dia, Dinho apareceu com uma bicicleta. “A bike” como dizia. Estava tão vaidoso com ela que a encheu de flores plásticas, roubadas do cemitério, e anéis de borracha colorida nos aros. Daí foi incrementando: uma buzina imitando boi, capa franjada no assento, farolete, bagageiro e por fim uma capota de vinil. Foi contratado para fazer “marketing” com o alto-falante acoplado à bike. E lá ia Dinho: “Casas de carne Ribeiro, onde vale mais o seu dinheiro...” Cidade crescendo, eu normalista, novidades e modernidades...
Dinho apostou nas máquinas caça-níqueis e a cidade o viu ganhar oitocentos reais. Não deu outra. Dinho comprou uma Brasília no ferro velho. Amou-a como havia idolatrado a bicicleta. E passou a incrementá-la: bandeirolas, aerofólios, neon, espelhos laterais, filme nas janelas, farol de milha, som com rock pauleira...
Depois disso ficou comum ver Dinho próximo à carrocinha do vendedor de churrasquinho. A Brasília estacionada com a tampa do porta-malas aberta e enormes caixas de som no máximo volume. Os badboys, filhinhos de papai, davam-lhe moedas para vê-lo colocar o som mais alto e escolhiam as músicas. Na inocência da sua sandice, Dinho não se dava conta de que o faziam para poderem rir à vontade.
Numa manhã de segunda-feira, a cidade amanheceu mais silenciosa: Num entrevero com travestis da praça, Dinho levara um tiro no meio da testa. Só a Brasília não silenciou, continuou tocando: “Don’t cry for me, Argentina...”
Dinho era o filho número nove entre os doze de Alaíde. A negra Alaíde era viúva. Ainda moça perdera o marido quando esse, ao pular a janela do rancho da comadre Olga, enredara a bombacha no umbral e o marido ultrajado o alcançara com dois golpes do facão de esquilar, lavando a honra.
Sem recursos, Alaíde fazia serviços a uns e outros e também ao pároco. (Diziam que o filho menorzinho era a cara do padre, cuspido e escarrado.) Ela era encarregada de lavar e engomar os panos da igreja e Dinho servia de coroinha aos domingos, na única missa, às dez horas. Depois disso, Dinho pegava carona no Chrisler do meu pai e seguia, acenando com o chapéu aos passantes, até o casarão de “Dom Domingo”, meu avô materno.
Dinho almoçava na mesa com os empregados e depois ficava servindo de pajem da “Ducinha” como ele me chamava, não sei se por não saber pronunciar meu nome ou outro motivo qualquer. Perdeu o cargo de me pajear quando meus pais viram uma de nossas brincadeiras: Eu, em meu vestido domingueiro de broderie branco com fitas de veludo e saias armadas, sapatos de verniz e meias brancas. Dinho agarrava-me pelas fitas de organza com picô das tranças e, com uma réstea de cebola vazia, tocava-me aos gritos de “eia” enquanto eu corria à volta do potreiro.
Terminada a hora em que os adultos faziam a digestão conversando na varanda, era hora de ir embora. Antes de entrar, Dinho cuspia nas mãos e apagava o vestígio de poeira dos meus sapatos de verniz.
Depois disso, eu só o via aos domingos na igreja. Sempre que eu podia, levava de casa um pedaço de rapadura que, disfarçadamente colocava na cestinha enquanto Dinho recolhia os óbulos. De lá, também, Dinho foi dispensado depois que Padre Dirceu o pegou tomando o vinho da missa, com o bolso cheio de hóstias. Acho que as levava para acrescentar à refeição dos irmãos.
Longe da igreja, Dinho foi trabalhar como engraxate e eu o via no trajeto para a escola, sempre com a caixa às costas rumo à praça.
Um belo dia, Dinho apareceu com uma bicicleta. “A bike” como dizia. Estava tão vaidoso com ela que a encheu de flores plásticas, roubadas do cemitério, e anéis de borracha colorida nos aros. Daí foi incrementando: uma buzina imitando boi, capa franjada no assento, farolete, bagageiro e por fim uma capota de vinil. Foi contratado para fazer “marketing” com o alto-falante acoplado à bike. E lá ia Dinho: “Casas de carne Ribeiro, onde vale mais o seu dinheiro...” Cidade crescendo, eu normalista, novidades e modernidades...
Dinho apostou nas máquinas caça-níqueis e a cidade o viu ganhar oitocentos reais. Não deu outra. Dinho comprou uma Brasília no ferro velho. Amou-a como havia idolatrado a bicicleta. E passou a incrementá-la: bandeirolas, aerofólios, neon, espelhos laterais, filme nas janelas, farol de milha, som com rock pauleira...
Depois disso ficou comum ver Dinho próximo à carrocinha do vendedor de churrasquinho. A Brasília estacionada com a tampa do porta-malas aberta e enormes caixas de som no máximo volume. Os badboys, filhinhos de papai, davam-lhe moedas para vê-lo colocar o som mais alto e escolhiam as músicas. Na inocência da sua sandice, Dinho não se dava conta de que o faziam para poderem rir à vontade.
Numa manhã de segunda-feira, a cidade amanheceu mais silenciosa: Num entrevero com travestis da praça, Dinho levara um tiro no meio da testa. Só a Brasília não silenciou, continuou tocando: “Don’t cry for me, Argentina...”
Sábado, 20 de Junho de 2009
Nas asas da luxuria

Nas asas da luxuria eu viajei
E só nos teus braços pude pousar,
Eu sei como é esta sem esperança,
Senti de novo o êxtase quando eu a beijei...
Permaneci em teu coração
Como a única rosa de um jardim,
Minha querida somos manequins
Manipulados pela canção...
Pela canção do amor,
Cantada pelos anjos que caíram
Cantada pela voz da dor
Nas asas da luxuria voaremos,
Sem nosso amor nossos corações não bateriam
Mais, então sempre nos amaremos...
(Em breve em vídeo poema gótico)
Breno Filth
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
A menina e as doze badaladas

Foram doze badaladas, o som repercutiu através dos salões imensos e vazios. Quem ousaria enfrentar o medo e espiar, ainda que pela fresta da fechadura, a quem pertenciam os passos cadenciados. Um...dois...três...
Uma lufada de vento forte, arrancou as cortinas diáfanas e a lua penetrou toda senhora de si o aposento sombrio. Iluminando e evidenciando os cantos escuros. A última esperança era o circulo de luz, no chão do quarto de brinquedos. Ainda podiam tentar... Mas quem iria se arriscar? Espreitando na escuridão eles aguardavam.
O que antes era motivo de alegria, agora só trazia pânico e horror. Bonecas rotas e caolhas pareciam acompanhar seus movimentos, bailarinas tortas pendiam pelas prateleiras, caixas de lembranças em papel desbotado. Caixas de brinquedos , papeis e giz de cera espalhados pelo chão.
Houve uma vez uma menina que só queria ser feliz. Ela cresceu em uma casa linda, com pais que se amavam muito, tanto que não tinham tempo para mais nada alem de si. Restavam os jardins com muitas flores e balanços, empregadas e babás. Correndo pelas alamedas ela sonhava que era uma fada e pintava as mais lindas cores. Cantava e bailava e assim eram os dias de sol. Dias de luz.
Algumas vezes a doçura perdia o encanto. Prendendo laços negros nas pontas das longas tranças, ela transformava-se na bruxa má e desejava afogar todos no grande lago. Todos sem exceção, mesmo os que deveria obedecer e respeitar. Nestes dias em que o céu cingia as nuvens em chumbo de puro rancor... Ela partia-se em mil pedaços e não sabia o que era ou o que fazia. Destruía o que atravessasse seu caminho, maltratava os bichos e as pessoas tinham verdadeiro pavor.
Quando tudo se acalmava ele repetia baixinho: Não estou sozinha. Foi ela quem fez estas coisas ruins. Somos duas irmãs em almas costuradas a ferro e brasa. Talvez seja um castigo... Talvez... Mas não estou sozinha. Ela está comigo.
Como a canção de ninar jamais entoada. Ela ou elas adormeciam. Almas siamesas tão diversas, brincavam por trás do espelho do salão de chá. Esgueirando sob tapetes vivia o tormento, oculto sob camadas de espessa lã e tramas bem amarradas. Prisioneiros e cúmplices aguardando o momento propício da salvação, eles se apegaram. Agora eram três.
Algumas vezes deitada em frente a lareira, ouvia historias de um tempo em que não havia nada. O vazio e o inexplicável, caminharam juntos e criaram vida. Foi assim que ela iniciou seu aprendizado com o mestre dos sonhos. Ele repetia cada lição, dia após dia... Incansável em sua doutrina. E todo ensinamento tem um custo muito alto. Talvez insuportável ou além dos limites.
Certo dia os pais perceberam, que não tinham uma criança que se contentava com doces e afagos. Era uma aberração que precisavam destruir o quanto antes, temiam o dedo acusador e os risos de escárnio. A menina encarou os pais : Dentro dos olhos da família feliz, viu medo e ódio. O cutelo firme destruiu cada pedacinho daquelas vidas.
-- A décima terceira hora ---
Urros animalescos, sons guturais, gritos agudo e graves. Ópera dos desalmados, incompreendidos e fracassados. Música.
O cheiro acre crescia e os animais rondavam a fazenda. Todas as portas e janelas foram abertas. Era o convite final! Que viessem e compartilhassem o banquete... A menina percorreu cada cômodo e fingiu não perceber os poucos sobreviventes. O ar gelado da noite envolveu o ambiente. Eles chegaram aos poucos, vinham deslizando pelo caminho da escuridão, ainda temiam o casulo, mas sabiam que precisavam obedecer.
Finalmente a menina deixou-se levar pelo destino, sentiu quando partes de seu corpo eram arrancadas e engolidas às pressas. Precisava ser devorada e destruída, era parte do todo e ela agora compreendia. A agonia final veio arrebatada de um contentamento indescritível. Abriu os braços e foi recebida pela Mãe.
A lua negra ofertou o fio condutor.
Formando um ponto único nas trevas.
Surgiu uma centelha criada pelo medo
Partiu-se em duas fagulhas ínfimas.
Tênues e pálidas... Mas vívidas!
A Morte soprou e deu vida ao que seria sua criação derradeira. Partiu gloriosa do seu feito, mais uma vez havia triunfado. Os seres divinos sempre apostavam e perdiam. Ninguém conhecia mais o homem... Do que ela. Tão temida e odiada. Para ela não havia segredo, perdão, compaixão ou misericórdia. Apenas justiça.
O pequeno milagre acontecia e todos os seres observavam em silencio. Das duas forças abriu-se um vórtice e de lá surgiram sete mistérios. Eles iriam engolir o mundo, tomar o fel da taça.
E trazer a ruína à humanidade torpe.
O pequeno milagre acontecia e todos os seres observavam em silencio. Das duas forças abriu-se um vórtice e de lá surgiram sete mistérios. Eles iriam engolir o mundo, tomar o fel da taça.
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Bilhete de amor encontrado na casaca do lunático
Meu inferno paradisíaco
Impregne-me as cores difusas em paranóia, com tua palidez de arranjos, em pleno furacão.
Por favor, leituras impróprias nas tardes monótonas de domingos e que tuas próximas difamações sejam cuspidas na minha morbidez.
Não bata, escancare a porta do meu quarto com a brutalidade dos diamantes.
Que teu ódio seja exposto em copos cristalinos, quebrados na minha face e leves esfaqueamentos de núpcias.
Cascas de ferida, imensidões, libélulas, o teu grifo na minha pele crua.
Que nada te salve de mim, jamais.
No teu abismo minha casa.
No meu ventre tua solidão.
Jura que vai gritar por mim em insólitos escuros?
E que nossas linguagens serão metas corroídas em harmonias sintomáticas.
Prometa-me a chibata dos segredos no final da tarde, para que não ocorra o claustro noturno.
Nasça em mim, vertigem soluçada.
Uma estranha fusão me sonha e desespera.
Socorra-me com inocências pútridas.
Da que sempre foi,
De quem nunca será.
Impregne-me as cores difusas em paranóia, com tua palidez de arranjos, em pleno furacão.
Por favor, leituras impróprias nas tardes monótonas de domingos e que tuas próximas difamações sejam cuspidas na minha morbidez.
Não bata, escancare a porta do meu quarto com a brutalidade dos diamantes.
Que teu ódio seja exposto em copos cristalinos, quebrados na minha face e leves esfaqueamentos de núpcias.
Cascas de ferida, imensidões, libélulas, o teu grifo na minha pele crua.
Que nada te salve de mim, jamais.
No teu abismo minha casa.
No meu ventre tua solidão.
Jura que vai gritar por mim em insólitos escuros?
E que nossas linguagens serão metas corroídas em harmonias sintomáticas.
Prometa-me a chibata dos segredos no final da tarde, para que não ocorra o claustro noturno.
Nasça em mim, vertigem soluçada.
Uma estranha fusão me sonha e desespera.
Socorra-me com inocências pútridas.
Da que sempre foi,
De quem nunca será.
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